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Elenise Rocha Pires

Foto: Acervo Pessoal

Quando Elenise Rocha Pires saiu de casa para realizar exames no início de 2021, ninguém imaginava que aquela seria a última vez que ela atravessaria a porta de casa. Depois de anos convivendo com consultas, tratamentos e acompanhamentos médicos, aquela saída parecia apenas mais um capítulo de uma rotina já marcada por cuidados constantes com a saúde.

Havia preocupação, naturalmente, mas havia também a expectativa do retorno. A família acreditava que a internação duraria poucos dias, apenas o tempo necessário para investigar alterações identificadas em exames recentes e definir os próximos passos do tratamento. Como acontece em tantas famílias, ninguém se despediu de verdade, porque ninguém acreditava estar diante de uma despedida.

Os primeiros dias foram atravessados pela sensação de que tudo voltaria ao normal em breve. As conversas giravam em torno dos resultados dos exames, dos procedimentos necessários e da expectativa de retorno para casa. Mas, à medida que o tempo passava, a ausência começou a ocupar um espaço cada vez maior dentro da rotina da família. O que parecia uma pausa se transformou em permanência. O que parecia um intervalo começou a adquirir a forma de uma ruptura.

Meses depois, Bruna Rocha Pires ainda tentava encontrar palavras capazes de explicar aquela sensação. Entre todas as lembranças daquele período, uma frase passou a resumir a experiência de forma quase dolorosamente simples:

“Todo mundo viu minha mãe saindo, mas não voltando”. 


Para ela, a força dessas palavras está justamente no fato de não existir um momento exato em que a despedida aconteceu. Não houve um último abraço consciente, uma conversa final ou um adeus definitivo. Houve apenas uma saída aparentemente comum que, aos poucos, se transformou em ausência permanente.

 

Foto: Acervo Pessoal

“Todo mundo viu minha mãe saindo,
mas não voltando.

Foto: Acervo Pessoal

As batalhas que vieram antes

Antes mesmo da pandemia, Elenise já mantinha uma relação longa e complexa com a própria saúde. Ao longo da vida, enfrentou episódios de depressão, passou por tratamentos médicos exigentes e precisou lidar com os impactos de um câncer de mama que exigiu anos de acompanhamento. Ainda assim, a imagem que permanece na memória da filha não é a de alguém definido pela doença.

Bruna prefere lembrar da mãe pela alegria com que ocupava os espaços.

Era uma mulher afetuosa, comunicativa e resiliente, daquelas pessoas que encontram maneiras de seguir em frente mesmo quando os dias parecem mais difíceis.
As doenças faziam parte da sua trajetória, mas nunca conseguiram apagar sua capacidade de cuidar dos outros, de se preocupar com a família e de manter uma presença constante na vida das pessoas que amava.

Por isso, quando novos exames apontaram alterações que precisavam ser investigadas, a preocupação veio acompanhada de esperança. A expectativa era compreender o que estava acontecendo e iniciar um tratamento adequado. Afinal, aquela não era a primeira batalha que Elenise enfrentava. A família acreditava que seria apenas mais uma.

Foto: Acervo Pessoal

A doença dentro da doença

Durante a internação, veio o diagnóstico de leucemia.

A notícia alterou completamente o rumo dos acontecimentos. O que havia começado como uma investigação médica se transformou em uma corrida contra o tempo. O tratamento precisou ser iniciado imediatamente dentro do hospital, em um momento em que o organismo de Elenise já carregava os efeitos de anos de enfrentamentos sucessivos.

Foi nesse contexto que a Covid-19 entrou na história da família.

Segundo Bruna, a mãe ainda não havia conseguido se vacinar. A campanha de imunização avançava lentamente naquele período e, diante das dúvidas médicas relacionadas ao quadro clínico dela, a vacinação acabou sendo adiada. Quando surgiram os primeiros sintomas respiratórios, a situação já era delicada. A confirmação da infecção representou mais do que um novo diagnóstico. Representou a chegada de uma nova ameaça a um corpo que já travava outras batalhas simultaneamente.

Em poucos dias, o quadro respiratório começou a se agravar. A necessidade de suporte intensivo de oxigênio aumentou e as perspectivas médicas se tornaram cada vez mais cautelosas. Para Bruna, havia uma sensação difícil de descrever ao assistir tudo aquilo acontecer. Não era apenas o medo da Covid-19. Era a impressão de que a mãe estava sendo obrigada a enfrentar uma doença dentro da outra, como se cada tentativa de recuperação fosse interrompida por uma nova ameaça.

“Ela não poderia ter pegado Covid naquele momento.”

A frase permanece na memória da filha porque resume a sensação de injustiça que atravessa toda a história. A Covid não chegou em um momento de estabilidade. Ela encontrou um organismo fragilizado, já comprometido por tratamentos agressivos e por um diagnóstico que, sozinho, já exigia uma luta enorme.

A última vez

Antes da intubação, Bruna foi chamada ao hospital.

Hoje, ao relembrar aquele encontro, ela percebe que já existia uma gravidade silenciosa ocupando o ambiente, mesmo que ninguém falasse sobre ela de forma explícita. Elenise tinha dificuldade para respirar, estava cansada e sabia que o quadro clínico havia se tornado mais delicado. Ainda assim, tentava transmitir tranquilidade.
Bruna recorda que a mãe continuava falando sobre voltar para casa. Falava sobre o tratamento, sobre o futuro e sobre coisas aparentemente simples que, naquele momento, representavam uma tentativa de manter a normalidade viva. Havia esperança naquelas palavras, mas também havia algo que só faria sentido depois: a percepção de que aquele encontro seria o último.

“Foi a última vez que eu conversei com a minha mãe.”

A lembrança permanece marcada não apenas pelo que foi dito, mas pelo que não pôde ser dito. Como acontece em muitas despedidas inesperadas, ninguém sabe que está vivendo o último encontro enquanto ele acontece. O significado surge depois, quando a memória passa a revisitar cada detalhe na tentativa de encontrar algo que permita suportar a ausência.

O tempo suspenso

Depois da intubação, a vida da família passou a ser organizada pela espera.

Os dias deixaram de ser medidos por horários comuns e passaram a ser contados entre boletins médicos, telefonemas e pequenas atualizações sobre o estado de saúde de Elenise. Em alguns momentos, surgiam sinais de melhora capazes de reacender a esperança. Em outros, novas complicações faziam com que o medo voltasse a ocupar todo o espaço.

Bruna ainda conseguiu vê-la durante uma visita no isolamento, utilizando equipamentos de proteção individual. A experiência, porém, já era atravessada por barreiras difíceis de ignorar. Havia máscaras, protocolos, equipamentos e uma sensação crescente de distância, mesmo quando mãe e filha estavam fisicamente próximas.

Foram cerca de sete dias de luta contra a doença.

Na madrugada em que a morte aconteceu, Bruna acordou antes do telefone tocar. Ela conta que havia sonhado com a mãe e carregava uma sensação estranha, impossível de explicar racionalmente.

“Tinha certeza que ela tinha falecido.”

Pouco depois, veio a ligação do hospital confirmando aquilo que ela já temia.

No dia 16 de junho de 2021,
Elenise Rocha Pires morreu vítima da Covid-19.

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O que a morte não levou

Foto: Acervo Pessoal

A morte de Elenise não encerrou os impactos da pandemia sobre a família. Na verdade, para Bruna, foi nesse momento que outra etapa começou.

Sem apoio psicológico institucional, ela precisou lidar sozinha com o próprio luto enquanto tentava sustentar a rotina dos dois filhos pequenos. Em meio à dor da perda, ainda era necessário continuar trabalhando, cuidar da casa e oferecer estabilidade emocional às crianças em um momento em que ela própria mal conseguia compreender a dimensão do que havia acontecido.

Com o passar dos meses, os efeitos da ausência começaram a aparecer também nos filhos. Um deles, que tinha apenas três anos na época, passou a apresentar mudanças de comportamento e dificuldades de interação social. Aos poucos, o sofrimento provocado pela perda atravessou gerações diferentes da mesma família, mostrando que a morte de uma pessoa raramente afeta apenas quem a perdeu diretamente.

O atendimento psicológico da criança só aconteceria cerca de um ano depois, com apoio da escola.

Até lá, o luto foi vivido dentro de casa, em silêncio, misturado às exigências da vida cotidiana. Não como um acontecimento encerrado, mas como uma presença constante que continuava reorganizando a família mesmo muito tempo depois da morte.

Porque a ausência de Elenise não desapareceu quando ela morreu.

Ela permaneceu nos hábitos interrompidos, nas conversas que deixaram de acontecer, nos lugares vazios da casa e nas perguntas que continuaram sem resposta. Como tantas outras famílias atravessadas pela Covid-19, Bruna aprendeu que o luto não é o fim de uma história. É a forma como ela continua existindo.

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