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Órfãos

Foto: Liv Bruce/Unsplash

Foto: Liv Bruce/Unsplash

Quando a pandemia passou a ser medida em números, uma dimensão da tragédia demorou mais para aparecer. Enquanto os boletins epidemiológicos contabilizavam mortos, internados e vacinados, outra consequência da Covid-19 começava a se espalhar silenciosamente dentro das casas o crescimento de uma geração marcada pela perda de pais, mães, avós e responsáveis.

Em muitos casos, essas crianças não viveram apenas a morte de alguém próximo. Elas atravessaram o luto em circunstâncias profundamente atípicas. A morte, para elas, frequentemente chegava sem os mecanismos que costumam ajudar a explicar a perda. Não havia velórios longos, reuniões familiares ou abraços coletivos. Havia casas silenciosas, portas que deixavam de se abrir e perguntas que continuavam sem resposta.

Pesquisadores passaram a alertar para os impactos emocionais da pandemia sobre crianças e adolescentes que perderam familiares próximos. Ansiedade, alterações de comportamento, dificuldades de socialização, regressão emocional e problemas de aprendizagem apareceram entre os efeitos mais observados por profissionais da saúde mental. Mas, para além dos diagnósticos, existia algo que os estudos tinham dificuldade de medir, a forma como a ausência passava a habitar o cotidiano.

Ela aparecia nas perguntas.

Quando ele volta?

Por que foi embora?

Perguntas simples, mas que muitas famílias não sabiam responder.

Segundo estimativas de cerca de 284 mil crianças e adolescentes brasileiros órfãos ou sem cuidadores diretos, o Brasil se tornou um dos países com maior número de crianças e adolescentes órfãos em consequência da Covid-19. A história de Leonardo ajuda a compreender essa dimensão da pandemia.

Porque, depois da morte dele, quem permaneceu tentando entender a ausência não foi apenas a companheira.

Foi também um menino que continuou esperando o pai voltar para casa.

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