Entre março de 2020 e o encerramento da emergência sanitária da Covid-19, o Brasil acompanhou diariamente gráficos, curvas epidemiológicas, médias móveis e contagens acumuladas de mortes. Os números se tornaram parte da rotina nacional, organizando manchetes, abrindo telejornais e orientando decisões políticas em meio à maior crise sanitária da história recente do país. As estatísticas eram necessárias.
Foto: Ricardo Moraes / Reuters
Foto: Sérgio Lima / Poder 360
Sem elas, seria impossível dimensionar a extensão da tragédia.
Mas os números também tinham limites.Eles não registravam os almoços de domingo na casa de Mario Sotero, os brinquedos guardados pelo filho de Leonardo, as chamadas de vídeo feitas por Márcia durante a internação ou as ligações em que Italira chorava dizendo que havia sido abandonada. Também não mostravam Bruna tentando reorganizar a vida dos filhos depois da morte de Elenise.
Por trás de cada atualização diária existiam histórias interrompidas, famílias reconstruídas pela ausência e rotinas que nunca voltaram a existir da mesma forma.
Anos depois do período mais crítico da pandemia, muitas dessas pessoas continuam tentando elaborar perdas atravessadas não apenas pela doença, mas também pela solidão, pelo isolamento, pela desinformação e pela sensação persistente de que parte daquelas mortes poderia ter sido evitada.
Na televisão, elas apareciam apenas como números.
Para quem ficou, no entanto, nenhuma dessas vidas coube dentro de uma estatística.