Leonardo Ribeiro
Foto: Acervo Pessoal
Durante muito tempo depois da morte de Leonardo, o filho continuou acreditando que aquela ausência era temporária. Os brinquedos permaneciam guardados nos mesmos lugares e a rotina seguia atravessada por uma expectativa silenciosa de reencontro, como se o pai ainda pudesse voltar a qualquer momento, atravessar a porta de casa e retomar o que havia sido interrompido. Em alguns dias, a criança perguntava quando ele voltaria em outros, apenas dizia que estava esperando, como se a resposta já estivesse dada no próprio ato de esperar.
Para os adultos ao redor, a morte já havia acontecido e tinha sido registrada, comunicada e enterrada dentro dos protocolos possíveis naquele período. Para ele, no entanto, a história permanecia em suspensão, como algo que ainda não tinha sido concluído. Era como se Leonardo tivesse apenas se afastado por um tempo maior do que o habitual, e não desaparecido de forma definitiva, e essa distância entre o entendimento adulto e a percepção infantil criava uma dor paralela dentro da mesma casa.
Flávia observava essa espera silenciosa tentando lidar, ao mesmo tempo, com o próprio luto e com a tentativa de sustentar alguma explicação possível para o filho. A ausência de Leonardo não ocupava apenas o espaço deixado por um companheiro, mas também o lugar de um pai que continuava sendo esperado no cotidiano, nas pequenas rotinas e nos gestos que faziam parte da vida doméstica antes da pandemia.
A vida antes da interrupção
Leonardo e Flávia estavam juntos desde 2007 e construíram uma vida marcada por aquilo que, na superfície, parece comum, mas que sustenta uma família no cotidiano: o trabalho, os horários repetidos, as conversas ao fim do dia e, sobretudo, a presença constante na criação do filho. Dentro dessa rotina, Leonardo ocupava um papel de proximidade contínua, especialmente na relação com a criança, já que, ao chegar do trabalho, tinha o hábito de procurar o filho imediatamente, muitas vezes ainda sem trocar de roupa, como se aquele reencontro diário fosse uma extensão natural do próprio dia.
Era nessa repetição silenciosa que a vida da família se organizava, sem grandes acontecimentos, mas sustentada por uma estabilidade construída nos gestos pequenos. A pandemia não chegou como ruptura imediata, mas como um processo que foi corroendo essa normalidade aos poucos, até transformar o cotidiano em incerteza.
O risco conhecido
Desde o início da pandemia, Leonardo sabia que fazia parte do grupo de risco para formas graves da Covid-19. Era diabético e realizava sessões de hemodiálise, o que o colocava entre os pacientes mais vulneráveis às complicações da doença. Por isso, segundo Flávia, passou a adotar uma rotina rigorosa de cuidados, evitando saídas desnecessárias, usando máscara e reduzindo ao máximo os contatos presenciais.
A família acreditava que essa disciplina seria suficiente para atravessar aquele
período com segurança, como aconteceu com tantas outras famílias que tentavam reorganizar a vida dentro das limitações impostas pela crise sanitária. Mas, como em tantos outros casos, o cuidado não foi garantia de proteção.
Foto: Acervo Pessoal
O início da doença
Os primeiros sintomas surgiram de forma discreta, quase banal, como uma tosse e um mal-estar que não pareciam, inicialmente, anunciar gravidade. No entanto, em poucos dias, o quadro respiratório se agravou de maneira acelerada e a internação tornou-se inevitável.
A partir desse momento, a vida da família passou a se reorganizar em torno do hospital e da incerteza, enquanto o tempo da doença parecia correr mais rápido do que a capacidade de compreensão de quem estava do lado de fora.
Dois dias após a internação, Leonardo morreu aos 46 anos. A rapidez com que tudo aconteceu permanece, para Flávia, como uma das marcas mais difíceis daquele período, não apenas pela perda em si, mas pela sensação de que não houve intervalo suficiente entre o adoecimento e o fim para que a família pudesse compreender plenamente o que estava acontecendo.
“Compareça com os documentos”
A notícia da morte não chegou como despedida, mas como convocação burocrática. Flávia recebeu uma mensagem solicitando que comparecesse à clínica com os documentos necessários e, ao chegar, foi informada de que o marido havia morrido. Como aconteceu com Márcia, Mario, Elenise e Italira, o impacto da perda veio atravessado por procedimentos formais que deixavam pouco espaço para qualquer elaboração imediata do luto.
Leonardo foi enterrado em caixão lacrado, dentro de protocolos sanitários que impediam o contato final e limitavam profundamente os rituais de despedida. A pandemia transformou o adeus em um gesto reduzido, muitas vezes restrito ao tempo possível e às condições impostas pela emergência sanitária, deixando para as famílias a experiência de uma ausência sem ritual completo.
A casa depois.
Depois da morte de Leonardo, a ausência passou a se manifestar nos detalhes mais simples da rotina. A casa continuou funcionando, mas de forma deslocada, como se algo essencial tivesse sido retirado do seu eixo. O filho, por sua vez, manteve por muito tempo a expectativa de retorno, preservando brinquedos no mesmo lugar e repetindo perguntas que, para ele, ainda faziam sentido dentro de uma lógica em que a ausência não era definitiva, mas apenas temporária.
Para uma criança, a morte nem sempre se apresenta como fim absoluto, mas como uma forma de interrupção que ainda pode ser revertida. É por isso que a espera se prolonga, mesmo quando os adultos já aprenderam a nomear a perda. Enquanto Flávia tentava reorganizar a própria vida a partir da ausência, o filho ainda buscava, à sua maneira, manter viva a possibilidade de reencontro.
A casa passou a ser habitada por essa dupla temporalidade, em que o luto dos adultos convivia com a espera da criança, e a ausência de Leonardo permanecia se desdobrando nos gestos cotidianos, nas perguntas repetidas e na persistência silenciosa de quem ainda não tinha aprendido a transformar a espera em despedida.
Leonardo foi enterrado em caixão lacrado, dentro de protocolos sanitários que impediam o contato final e limitavam profundamente os rituais de despedida. A pandemia transformou o adeus em um gesto reduzido, muitas vezes restrito ao tempo possível e às condições impostas pela emergência sanitária, deixando para as famílias a experiência de uma ausência sem ritual completo.