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Italira Susana Falceta

Foto: Acervo Pessoal

Nos últimos dias de vida de Italira, a voz passou a ocupar o lugar que antes pertencia à presença. Aos 81 anos, internada com Covid-19 durante um dos períodos mais críticos da crise sanitária no Brasil, ela atravessou a doença cercada por profissionais de saúde, equipamentos hospitalares e protocolos de isolamento que impediam qualquer visita da família. Os filhos continuavam existindo do lado de fora, mas já não podiam atravessar a porta do hospital.

Durante meses, o país assistiu à suspensão dos rituais mais básicos do cuidado. Filhos deixaram de acompanhar pais internados. Companheiros foram impedidos de permanecer ao lado de quem amavam. Famílias inteiras passaram a viver a doença à distância, tentando compreender a gravidade de um quadro clínico através de boletins médicos, mensagens de texto e chamadas de vídeo.

Foi nesse contexto que Paola Falceta passou a acompanhar a internação da mãe.
Ao mesmo tempo em que tentava lidar com a piora do quadro de Italira, Paola também enfrentava a própria infecção por Covid-19. A pandemia parecia avançar em várias direções ao mesmo tempo, atingindo diferentes membros da família e reduzindo as possibilidades de cuidado justamente quando elas se tornavam mais necessárias.

Sem poder estar presente, restava telefonar. Mas, para quem estava internado, a distância nem sempre fazia sentido.

Em algumas ligações, Italira chorava.
Em outras, perguntava por que ninguém aparecia.
Em outras ainda, tentava entender o motivo daquela ausência repentina.


“Ela ligava chorando, dizendo que nós tínhamos abandonado ela.”

Anos depois, a frase continua sendo uma das lembranças mais dolorosas para Paola. Não apenas pela tristeza que carrega, mas porque revela uma das marcas mais profundas daquele período: a transformação do cuidado em distância. O que era proteção sanitária muitas vezes era percebido pelos pacientes como abandono.

O telefone como único lugar de encontro

Foto: Acervo Pessoal

Italira foi infectada junto com outros membros da família. Enquanto alguns apresentaram sintomas mais leves e conseguiram se recuperar em casa, o quadro dela evoluiu rapidamente. A idade avançada e as complicações provocadas pela Covid-19 tornaram necessária a internação em um momento em que os hospitais brasileiros operavam sob enorme pressão.

Dentro das unidades de saúde, a lógica da pandemia alterava completamente a experiência do adoecimento. Os corredores estavam fechados para visitantes. As portas permaneciam isoladas. O contato físico desaparecia. A presença da família, elemento tradicionalmente associado ao conforto e ao cuidado, havia sido substituída por telas de celulares e chamadas rápidas mediadas por profissionais de saúde.

A doença deixava de ser uma experiência compartilhada para se tornar uma experiência profundamente solitária.

Enquanto isso, do lado de fora, os familiares tentavam reconstruir a situação a partir de informações fragmentadas. Cada ligação do hospital carregava um peso desproporcional. Cada notícia era interpretada como sinal de melhora ou agravamento. Cada silêncio prolongado produzia novas angústias.

Paola viveu os últimos dias da mãe dentro dessa espera permanente. Não havia o que fazer além de aguardar.
Não havia como segurar a mão dela. Não havia como sentar ao lado da cama. Não havia como prometer que tudo ficaria bem.

A doença vivida em isolamento

A morte de Italira aconteceu
em 12 de março de 2021.

Mas, de certa forma, a despedida havia começado dias antes, construída lentamente pelas ausências impostas pelo isolamento hospitalar. Não houve a possibilidade de permanecer ao lado dela até os últimos instantes.

A pandemia produziu um tipo de luto atravessado por lacunas. Muitas famílias não perderam apenas seus parentes. Perderam também a oportunidade de concluir histórias, resolver conflitos, agradecer, pedir perdão ou simplesmente estar presentes.

Quando Italira morreu, Paola passou a conviver com essa ausência dupla a ausência da mãe e a ausência da despedida.

Foto: Acervo Pessoal

Quando o luto vira luta

Nos dias que se seguiram à morte, Paola percebeu que a dor que carregava não era exclusivamente sua.

Milhares de brasileiros atravessavam experiências semelhantes. Pessoas que haviam perdido pais, mães, irmãos, filhos e companheiros em circunstâncias marcadas pela solidão, pelo isolamento e pela sensação de que parte daquela tragédia poderia ter sido evitada.

Foi nesse contexto que ela conheceu Gustavo Bernardes, advogado e sobrevivente de um caso grave de Covid-19. Da aproximação entre sobreviventes e familiares surgiu, em abril de 2021, a Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19, a AVICO Brasil.

Inicialmente, a proposta era oferecer acolhimento para pessoas que se sentiam sozinhas em meio ao luto. Com o passar do tempo, a associação também se transformou em um espaço de memória, escuta e mobilização. Ali, histórias que pareciam individuais passaram a encontrar pontos de contato.

“Meu luto foi luta desde o início”, afirma Paola.

A ausência que continua

Cinco anos depois, a vida seguiu adiante, mas a ausência de Italira permanece ocupando espaços que a passagem do tempo não conseguiu preencher.

Ela aparece em datas comemorativas, em conversas familiares, em lembranças inesperadas e em situações cotidianas que continuam evocando sua presença. Como acontece com tantas perdas significativas, o luto não desaparece. Apenas muda de forma.

Ao acompanhar familiares de vítimas através da AVICO, Paola percebeu que essa experiência se repete em diferentes partes do país. As histórias mudam. Os nomes mudam. As circunstâncias variam. Mas existe algo em comum entre elas: a sensação de que os números divulgados diariamente jamais conseguiram expressar a dimensão humana da tragédia.

Na televisão, as mortes apareciam como estatísticas.

Dentro das casas, eram mães, pais, avós, companheiros e amigos que deixavam lugares vazios à mesa. 

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