top of page

Saudades por todos os lados

O luto das famílias vítimas da Covid-19.

Por Natália Santos.

eb34663d-dc1c-47b8-847e-ef3082ea5f47.png

Foto: Walterson Rosa/MS

Esse texto é sobre o que números não conseguem descrever.

 

Essas linhas são sobre intimidade da dor. 

São sobre Márcia, que atravessava corredores conversando com quem encontrava e que, mesmo internada, perguntava pelos outros.

Sobre Mário, que fazia do balcão da lanchonete uma extensão da casa e dos domingos um ritual que segurava a família pelo apetite e pela música. 

Sobre Elenise, que saiu para exames com uma bolsa pequena e deixou uma porta permanentemente entreaberta na memória da filha.

Sobre Italira, que aprendeu a se despedir pela câmera do celular e transformou o luto da filha em luta coletiva. 

 

Sobre Leonardo, cuja ausência continua alinhando heróis na estante e ensinando um menino a esperar por uma chave que não gira. 

 

Há vidas que não cabem num gráfico, vidas que merecem ser lembradas pelo nome, pelo gesto, pelo jeito de ocupar uma sala. É a partir delas que esta reportagem se ergue. não para negar os números, mas para devolver às contagens aquilo que elas, por natureza, não podem carregar. 

 

Todos eles perderam familiares para a covid. E esse luto não cabe nos números ou nas estatísticas que ficaram para a história.

Resumo da COVID-19

População no Brasil

210 milhões de pessoas

Casos acumulados

39.318.227 incidentes

Óbitos acumulados

716.626 mortos.

vitimas_edited.jpg

Foto: Michael Dantas / AFP

Todos os dias, os números ocupavam as emissoras de televisão, de rádio, os sites de notícias, as mensagens instantâneas. Os números multiplicavam-se em uma exatidão imprecisa, difícil de compreender Gráficos, e ilustrações  apontavam para um acúmulo de informações que eram incapazes de mensurar a dor que não cabia naqueles números.

O Brasil passou a acompanhar a pandemia através de mapas vermelhos, boletins epidemiológicos e contagens diárias que transformavam uma tragédia coletiva em dados constantemente renovados. Mas passou a acompanhar também com as desinformações de todos os dias, que faziam a dor se multiplicar enquanto crescia a insensibilidade de parte da sociedade. 

Os números tentavam trazer alguma ordem ao caos informativo.. Sem eles, seria impossível compreender o avanço da doença e acompanhar o colapso hospitalar.  Mas ao mesmo tempo, a repetição constante das estatísticas produzia outro efeito: milhares de vidas passaram a ser contadas, o que é impossível. 

Isso porque, por trás de cada número existiam rotinas interrompidas, famílias reorganizadas pela ausência, objetos que permaneceram intactos dentro de casa e despedidas atravessadas pelo isolamento. Não havia sequer o direito à despedida porque o vírus impedia velórios ou caixões abertos.

Márcia foi uma delas.

bottom of page