Márcia Casati Albuquerque
Foto: Acervo Pessoal
No dia 18 de janeiro de 2021, Alexandre Casati viu a morte da mãe ser incorporada à contagem diária da pandemia. No dia anterior, as primeiras doses da vacina contra a covid foram aplicadas em pacientes nas cidade de São Paulo. Chegaram tarde para salvar a mãe.
Ele havia passado pela experiência que descreve como a mais difícil da vida de um filho: o reconhecimento do corpo de Márcia Casati Albuquerque em uma tenda refrigerada montada no estacionamento do Hospital Central do Exército, no Rio de Janeiro. Era o primeiro contato presencial desde a transferência dela para a capital.
Também seria o último.
O velório aconteceu de forma rápida e silenciosa. O caixão permaneceu lacrado durante toda a cerimônia, que durou poucos minutos e reuniu apenas familiares próximos, em meio aos protocolos sanitários da crise sanitária. Não houve tempo para despedidas prolongadas, nem para a chegada de amigos e parentes. A morte parecia maior do que o ritual que tentava contê-la.
Alexandre assistia aos telejornais com uma sensação difícil de nomear: ver a própria mãe desaparecer dentro de uma estatística diária.
Para ele, não era apenas uma perda. Era uma ruptura. Um antes e um depois que desorganizou a forma como enxerga o mundo
A mulher que sustentava o cotidiano
Márcia Casati Albuquerque era dona de casa, mas essa definição nunca foi suficiente para dar conta da forma como ocupava a vida da família. Segundo Alexandre, ela era o centro silencioso de tudo, a pessoa em torno da qual o cotidiano se organizava sem que isso precisasse ser nomeado.
Era ela quem cuidava, quem lembrava, quem perguntava, quem percebia o que faltava antes mesmo que alguém pedisse. A presença dela não se impunha de forma visível, mas sustentava o funcionamento de toda a casa.
Na rotina, Márcia fazia da convivência uma forma de cuidado contínuo. Se preocupava com todos, mantinha contato constante com a família e criava vínculos que ultrapassavam o núcleo doméstico. Em diferentes momentos, chegou a assumir a função de síndica do prédio onde morava no Rio de Janeiro, e essa experiência, segundo Alexandre, traduzia bem sua forma de estar no mundo, com responsabilidade, organização e uma maneira de lidar com as pessoas que combinava firmeza e acolhimento ao mesmo tempo.
Foto: Acervo Pessoal
A vida dela também era profundamente atravessada pela família ampliada. Tinha dois filhos e uma afilhada, Luiza, a quem tratava como filha. Mantinha uma relação muito próxima com a irmã, Mercedes, e era presença constante na vida da neta e de outras pessoas que orbitavam seu convívio. Mas, para Alexandre, o que define a mãe não está apenas na quantidade de relações que ela mantinha, e sim na qualidade dessa presença.
Ele lembra dela como uma mulher alegre, comunicativa e afetiva, alguém que tinha facilidade em transformar o ambiente ao redor sem esforço. Era comum que chegasse a um espaço e, em pouco tempo, já estivesse conversando, sorrindo, criando familiaridade. “Minha mãe tinha luz”, ele diz. “Ela era daquelas pessoas que você sente que fazem bem só de estar perto.”
Por isso, a doença aparece na memória da família como algo que rompe uma lógica difícil de aceitar. Não se tratava de alguém distante da vida ou já afastada dela, mas justamente o contrário: uma pessoa profundamente enraizada em vínculos, afetos e presença cotidiana. Alguém que não apenas vivia, mas fazia os outros viverem melhor ao redor.
Enquanto os televisores eram inundados por imagens de hospitais lotados, enterros coletivos e recordes sucessivos de mortes, outra narrativa circulava de forma silenciosa dentro dos celulares de milhões de brasileiros.
Nos aplicativos de mensagens, a pandemia também era contada, mas por versões fragmentadas, em um fluxo constante não se organizava como um discurso único, mas como um acúmulo de mensagens, áudios longos, vídeos curtos, prints de supostas notícias e relatos pessoais transformados em prova. Em muitos casos, não havia fonte identificável, apenas a urgência de ser acreditado antes de ser verificado.
Nesse ambiente, passaram a circular conteúdos que questionavam a gravidade da Covid-19 (e também a eficácia da vacina que chegava ao Brasil), colocavam em dúvida a eficácia das máscaras e desacreditavam as vacinas em desenvolvimento.
Também se espalhavam mensagens com recomendações sem base científica ou afirmações que relativizavam o risco da doença. A repetição e o fato de muitas dessas mensagens chegarem por pessoas próximas faziam com que, em diversos casos, elas não fossem percebidas como desinformação, mas como alerta. Políticos como o então presidente Jair Bolsonaro criticava máscara e a imunização.
A Organização Mundial da Saúde classificou esse fenômeno como “infodemia”, um excesso de informações, muitas delas falsas ou enganosas, que se sobrepunham às orientações oficiais e dificultavam a distinção entre risco real e boato. Na prática, isso significou que a pandemia deixou de ser interpretada a partir de uma referência comum. Ela passou a existir em versões paralelas, disputadas dentro da mesma casa.
Foi nesse contexto que Alexandre começou a perceber mudanças na forma como a mãe lidava com a crise sanitária. Aos poucos, medidas de proteção passaram a ser relativizadas. O uso de máscara deixou de ser constante, encontros passaram a ser vistos com menos preocupação e o medo da doença perdeu intensidade dentro da rotina.
“Meu capitão (o então presidente Jair Bolsonaro) disse que isso era apenas uma gripezinha”,
ela repetia em alguns momentos.
A frase ecoava um discurso que marcou a condução política da pandemia no Brasil.
Em diferentes ocasiões, o então presidente Jair Bolsonaro minimizou a gravidade da Covid-19, criticou medidas de isolamento social e questionou recomendações de autoridades sanitárias. Em março de 2021, durante o período mais letal da crise sanitária no país, declarou: “Chega de frescura e de mimimi”. Naquele momento, o Brasil registrava médias superiores a duas mil mortes diárias por Covid-19.
O capitão em quem Márcia acreditava já não parecia se importar com os números que, em pouco tempo, também iriam contá-la entre as perdas.
A desinformação
Márcia morreu no dia 18 de janeiro,
um dia antes do início da vacinação no Brasil.
Foto: Acervo Pessoal
Última vez.
No fim de dezembro de 2020, a família tentou reorganizar a rotina para reduzir ao máximo a exposição de Márcia ao vírus. Uma prima a levou para a Região dos Lagos, numa tentativa de isolamento que parecia, naquele momento, suficiente para conter o avanço da pandemia dentro da vida doméstica. Ainda assim, a proteção não se sustentou por muito tempo. Poucos dias depois, Márcia foi internada na UPA de Praia Seca após apresentar queda na saturação, e a partir daí o quadro clínico evoluiu de forma rápida, exigindo transferência para a UTI e, em seguida, para o Hospital Central do Exército, no Rio de Janeiro.
Foi nesse intervalo de deslocamentos sucessivos que Alexandre a viu pela última vez.
Ele lembra de um gesto simples, quase banal, que mais tarde passou a ocupar um lugar desproporcional na memória, o pedido para tomar banho antes da transferência. Não havia ali nada extraordinário, apenas uma tentativa de manter alguma normalidade diante de um processo que já se impunha como perda em andamento. É essa imagem, mais do que qualquer outra, que ele associa ao último contato presencial com a mãe.
Depois disso, o vínculo passou a existir apenas mediado pela distância. Entre os dias 25 e 31 de dezembro, a família conseguiu realizar duas chamadas de vídeo. Márcia ainda falava, ainda tentava sustentar alguma tranquilidade, ainda buscava tranquilizar os filhos como fazia em outros momentos da vida, como se a conversa pudesse reorganizar o que já estava fora de controle. Para Alexandre, essas ligações marcaram o momento em que a esperança deixou de ser percepção e passou a ser esforço.
A partir dali, o que se seguiu foi um tempo suspenso, feito de espera e de ausência progressiva. Vieram a intubação, os dias sem notícias e a traqueostomia, e o cotidiano da família passou a ser atravessado por informações fragmentadas, transmitidas em intervalos, como se a vida estivesse sendo narrada de fora para dentro.
Foto: Acervo Pessoal
A partir desse ponto, a ausência deixou de ser apenas um acontecimento e passou a ocupar o espaço inteiro da casa. Não como vazio absoluto, mas como presença invertida, feita de lembranças que insistiam em aparecer nos gestos mais simples do cotidiano, nos lugares que ela ocupava, nas conversas interrompidas, nas rotinas que continuavam existindo mesmo sem quem as organizasse.
Para Alexandre, a sensação não era apenas de perda, mas de deslocamento permanente, como se o mundo tivesse seguido adiante sem reorganizar o que foi deixado para trás.
Na televisão, os números continuavam sendo atualizados diariamente. Mas dentro de casa, nenhuma dessas atualizações encontrava correspondência possível no que havia sido vivido. O que aparecia como estatística já não tinha forma de reencontro com a experiência concreta da perda. Márcia não era uma linha em um gráfico. Era o que sustentava o cotidiano antes dele se desfazer.
E a história dela não era uma exceção dentro daquele período. Era uma entre milhares de variações de um mesmo processo que se repetia em diferentes casas, com diferentes nomes, mas quase sempre com o mesmo desfecho. Em muitos casos, esse intervalo acontecia enquanto o país ainda esperava uma solução coletiva para a crise sanitária. A vacinação surgia como promessa, como horizonte, como tentativa de reorganizar o tempo depois de meses de colapso.