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Mario Sotero

Foto: Acervo Pessoal

A contaminação começou dentro da própria família. A irmã de Marlene viajou para Maceió e voltou infectada pela Covid-19. Em poucos dias, o vírus atravessou a casa e chegou a todos. Primeiro Marlene, depois Mario, depois o filho do casal, Eduardo Paiva. A sequência aconteceu rápido demais para ser assimilada. Enquanto a família ainda tentava compreender a primeira perda, a irmã de Marlene morreu em apenas três dias, abrindo um intervalo de tempo em que a vida já não parecia responder à mesma lógica de antes.

A partir daí, tudo se acelerou e ao mesmo tempo parou.

Mario começou a apresentar piora no quadro clínico e foi internado. O que inicialmente parecia uma evolução controlável se transformou em internação prolongada, marcada por instabilidade e espera. Foram cerca de vinte dias no hospital, com intubação, duas paradas cardíacas e comprometimento severo dos pulmões, enquanto o Brasil atravessava uma das fases mais críticas da crise sanitária, com hospitais no limite e famílias vivendo a doença à distância.

As visitas já não existiam. O contato passou a acontecer por mediações frágeis, chamadas rápidas, boletins médicos, informações que chegavam em pedaços e nunca conseguiam reconstruir o todo. A doença deixou de ser acompanhada dentro da presença e passou a existir como fragmento, como notícia, como espera.

Foi a filha de Mario quem passou a ocupar esse lugar entre o hospital e a família, tentando traduzir o que chegava em informação, tentando transformar pequenas variações em alguma forma de sentido. Mas, como em tantas outras famílias naquele período, nada era suficiente para reduzir a incerteza.

Para Eduardo, o filho, a morte do pai ainda é atravessada pela sensação de interrupção. Ele insiste que Mario se cuidava, que evitava sair de casa, que levava a pandemia a sério desde o início. Ainda assim, a infecção aconteceu em um contexto em que a vacinação avançava lentamente no país, enquanto o debate público era atravessado por disputas políticas, atrasos na compra de imunizantes e uma sensação constante de descompasso entre a urgência da vida e o ritmo das decisões.

“Não foi uma morte natural. Foi uma morte decorrente de escolhas.”

Durante décadas, os domingos na casa de Mario seguiram um mesmo movimento, repetido tantas vezes que já não precisava ser explicado. A família se reunia em torno da mesa e, a partir dali, o tempo deixava de ser pressa. As conversas se alongavam pela tarde, atravessavam assuntos pequenos e grandes, e faziam daquele encontro uma espécie de permanência. A comida portuguesa, especialmente o bacalhau, era mais do que tradição: era um vínculo com a origem que Mario trouxe de Portugal quando decidiu começar a vida no Brasil.

Essa mesma continuidade aparecia também no trabalho. Desde 1966, Mario vivia atrás do balcão de uma lanchonete em São Paulo, onde os dias se repetiam com a mesma lógica discreta de sempre. Ele não era apenas o comerciante do lugar. Era alguém que reconhecia vozes antes mesmo de ver rostos, que acumulava histórias de clientes antigos, que fazia do espaço de trabalho uma extensão da própria convivência. A vida dele se organizava nesse ritmo constante, feito de pequenas repetições que juntas, construíam estabilidade.

Depois de 46 anos ao lado de Marlene Brisola, essa rotina parecia não depender mais de grandes mudanças. Era uma vida construída no hábito, na repetição, na presença silenciosa do cotidiano. Até que a pandemia interrompeu esse movimento sem aviso e sem transição.

A contaminação dentro da família

Mario morreu
em 17 de abril de 2021.

Foto: Acervo Pessoal

A notícia não chegou como despedida, mas como chamada. Coube à filha reconhecer o corpo.

O velório seguiu os protocolos sanitários daquele período, com caixão lacrado e tempo reduzido de cerimônia, como aconteceu com milhares de famílias que viveram a pandemia sem a possibilidade do adeus.

Dentro da contagem diária de mortes, Mario passou a ser mais um número. Mas a estatística não alcançava o que existia antes dela: os domingos repetidos ao longo de décadas, o balcão que sustentava relações, o trabalho que virava convivência, a vida inteira construída na repetição do cotidiano.

O que ficou depois não foi apenas ausência. Foi a sensação de que tudo aquilo que era rotina havia sido interrompido no meio.

Foto: Acervo Pessoal

Foto: Acervo Pessoal

O que ficou?

Depois da morte de Mário, o silêncio passou a ocupar espaços que antes eram preenchidos pela rotina compartilhada. A ausência não apareceu de forma imediata, mas se espalhou lentamente pelos detalhes do cotidiano, atravessando as refeições que perderam o sentido de encontro, os finais de semana que deixaram de ter o mesmo ritmo e até as músicas que antes marcavam os momentos da família e passaram a soar como lembrança.

Marlene precisou lidar, em um intervalo curto de tempo, com duas perdas atravessadas pela mesma crise sanitária, a do marido e a da irmã. A repetição da morte dentro do mesmo núcleo familiar transformou o luto em algo contínuo, sem pausas claras entre uma ausência e outra. Sem acompanhamento psicológico formal naquele período, passou a buscar formas possíveis de reorganizar a própria vida, tentando reconstruir algum tipo de estabilidade depois do que havia sido interrompido.

Ainda em 2021, decidiu prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). A aprovação no curso de serviço social da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) não foi apenas um movimento acadêmico, mas uma tentativa de recomeço dentro de um tempo em que quase tudo havia sido desfeito.

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